Por Fernanda Rezende
Projeto Livre — Faculdade de Direito Professor Jacy de Assis | Universidade Federal de Uberlândia
O Projeto Livre, em parceria com o Diretório Acadêmico XXI de Abril, o Coletivo Íris e o PET Direito, realizou, no dia 11 de fevereiro de 2026, a palestra “Políticas Públicas e populismo penal: o sistema carcerário no Brasil”. A atividade reuniu estudantes, professores e integrantes de diferentes iniciativas acadêmicas para promover um espaço de diálogo e reflexão sobre o sistema prisional brasileiro, as políticas públicas direcionadas à população privada de liberdade e os impactos do chamado populismo penal.
A mesa contou com a participação dos professores Dra. Débora Pastana, Dra. Beatriz Corrêa e Dr. Helvécio Damis, além dos discentes Fernanda Rezende, Arthur Machado e Richard Bartolomeu, representando, respectivamente, o Diretório Acadêmico XXI de Abril, o Projeto Livre e o Coletivo Íris. A composição possibilitou o encontro entre diferentes perspectivas acadêmicas e estudantis, ampliando a discussão sobre as múltiplas dimensões que atravessam a realidade carcerária brasileira.
As contribuições dos professores partiram de perspectivas distintas e complementares. Dra. Beatriz Corrêa e Dr. Helvécio Damis conduziram suas exposições a partir de uma abordagem mais diretamente relacionada ao Direito Penal, discutindo os fundamentos e os efeitos das políticas de endurecimento da resposta penal, bem como os limites e desafios da utilização do encarceramento como instrumento de enfrentamento de problemas sociais. As reflexões permitiram problematizar a expansão do poder punitivo e seus impactos sobre a efetivação de direitos fundamentais no âmbito do sistema prisional.
Já a Dra. Débora Pastana trouxe uma perspectiva marcadamente sociológica, ampliando a discussão para além dos aspectos estritamente jurídicos da punição. Sua abordagem possibilitou compreender o encarceramento como fenômeno social e político, chamando atenção para a forma como determinadas populações são atingidas de maneira específica pela lógica prisional. Nesse contexto, destacou-se também o olhar voltado para a população LGBTQIAPN+ encarcerada, evidenciando as vulnerabilidades e as particularidades enfrentadas por essas pessoas no interior do sistema penitenciário. A discussão contribuiu para compreender que a experiência do cárcere não é homogênea e que fatores relacionados à identidade, às relações sociais e às estruturas de desigualdade também atravessam a vivência da população privada de liberdade.
A articulação entre essas diferentes perspectivas permitiu que o debate abordasse questões como as consequências de políticas pautadas pelo endurecimento penal, a utilização do encarceramento como resposta a problemas sociais, a expansão da lógica punitiva e os desafios para a efetivação dos direitos e da cidadania das pessoas privadas de liberdade. Ao aproximar as dimensões jurídica e sociológica, a palestra buscou evidenciar que a compreensão do sistema carcerário exige uma análise que considere tanto as normas e políticas que estruturam a punição quanto as experiências concretas daqueles que estão submetidos a ela.
Essa aproximação entre teoria e realidade também está diretamente relacionada à atuação desenvolvida pelo Projeto Livre. Em parceria com a Defensoria Pública, o projeto participa de atendimentos prisionais, proporcionando aos seus integrantes contato direto com as demandas apresentadas pela população privada de liberdade. A experiência permite observar, na prática, questões que muitas vezes permanecem restritas ao campo teórico, como dificuldades de acesso a direitos, condições de encarceramento e diferentes formas de vulnerabilidade vivenciadas no sistema prisional.
Nesse sentido, a atuação prática constitui parte importante da proposta de formação do Projeto Livre, ao possibilitar que o conhecimento produzido e discutido no ambiente universitário seja constantemente confrontado com a realidade. O contato com a população carcerária contribui para uma formação jurídica mais crítica, capaz de compreender o Direito não apenas como um conjunto de normas, mas também como instrumento relacionado à concretização de direitos fundamentais e à transformação das realidades sociais.
A realização da palestra também reforçou a importância da articulação entre diferentes iniciativas da universidade. A parceria com o Diretório Acadêmico XXI de Abril, o Coletivo Íris e o PET Direito possibilitou a construção coletiva de um espaço de discussão que ultrapassou os limites da sala de aula e reuniu diferentes experiências, perspectivas e formas de atuação acadêmica. A iniciativa demonstra como a colaboração entre projetos, grupos e entidades estudantis pode contribuir para ampliar o debate sobre questões jurídicas e sociais contemporâneas.
Como desdobramento concreto das discussões realizadas durante o encontro, também foi lançada uma campanha de arrecadação destinada à população LGBTQIAPN+ da Penitenciária Professor Pimenta da Veiga, em Uberlândia. A iniciativa surgiu como forma de aproximar a reflexão promovida pela palestra de uma ação efetiva voltada às necessidades dessa população dentro do sistema prisional, contribuindo para a garantia de condições mínimas de dignidade às pessoas privadas de liberdade.
A campanha representa, assim, uma extensão prática do debate desenvolvido durante a palestra. Ao mobilizar a comunidade acadêmica e a sociedade para a arrecadação de itens destinados às pessoas LGBTQIAPN+ encarceradas, o Projeto Livre reforça a compreensão de que o encarceramento não elimina a condição de sujeito de direitos. A privação da liberdade constitui uma restrição determinada pela ordem jurídica, mas não afasta a dignidade humana nem os demais direitos que permanecem assegurados às pessoas submetidas à prisão.
A palestra, portanto, ultrapassou a discussão exclusivamente acadêmica ao reunir diferentes perspectivas sobre o fenômeno carcerário, aproximar a universidade da realidade prisional, fortalecer a articulação entre iniciativas acadêmicas e transformar parte das reflexões produzidas em uma ação concreta. O encontro reafirmou o compromisso do Projeto Livre com uma formação jurídica crítica e com a defesa dos direitos da população privada de liberdade, colocando no centro do debate não apenas as estatísticas, as políticas punitivas e as estruturas do sistema penal, mas, sobretudo, as pessoas que vivenciam diariamente a realidade do cárcere.
Sobre a autora:
Fernanda Rezende, 20 anos, é estudante do 3º período do curso de Direito da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Possui forte interesse pelo estudo do Direito Penal, especialmente pela pesquisa acerca das violações ao Estado Democrático de Direito. Integra o Projeto Livre desde o 1º período, atuando como membro do Núcleo Científico e coordenadora de Mídia do Projeto Livre e, atualmente, como coordenadora geral.
Para mim, o Livre é muito mais do que um projeto de extensão. É onde aprendo, todos os dias, que o Direito não pode permanecer restrito aos livros, aos códigos e às salas de aula. Ele precisa alcançar pessoas, especialmente aquelas que tantas vezes são esquecidas e deixadas à margem. Fazer parte do Livre me ensinou a olhar para além do crime, do processo e da condenação. Ensinou-me a enxergar a pessoa que existe por trás de cada história e a compreender que estar privado de liberdade não significa estar privado de dignidade. Nos atendimentos prisionais, nas remições, nos mutirões e nas campanhas, percebo que, muitas vezes, um gesto que parece pequeno para nós pode representar, para alguém, a esperança de não se sentir completamente abandonado.
O Livre me ensina Direito, mas, acima de tudo, me ensina humanidade. Ensina-me que lutar por direitos também é uma forma de cuidar, que ouvir também é uma forma de acolher e que escolher não ser indiferente diante da dor do outro é, por si só, um ato de justiça. É por isso que o Livre representa tanto para mim. Ele me mostra que exercer o Direito vai muito além de uma beca, de um código ou de uma profissão. É colocar o conhecimento a serviço de quem precisa, é estar presente onde quase ninguém quer estar e é lembrar àqueles que estão atrás das grades que, apesar da liberdade que lhes foi retirada, sua dignidade permanece e seus direitos também. No fim, é isso que o Livre significa para mim: a certeza de que o Direito só cumpre verdadeiramente o seu papel quando é capaz de enxergar, acolher e defender pessoas."